terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Café Amargo...


Como sempre, rigorosamente nos últimos anos, despertou. Com um relógio barato desses que se encontra nos mercados de rua, acordou para mais um dia.

Levantou-se.

Nada era supersticioso, não tinha aquelas manias de acordar, com o pé direito.

Vestiu-se, e saiu!

Raramente dava um oi pra o cachorro, que coitado, era mais carente que ele próprio.

Não tinha costume de fazer o dito necessário desjejum em casa.

E por isso sempre fazia, em um caféh perto de casa. Há anos

tinha essa rotina.

Mal entrará no caféh, e a atendente já sabia o que ele queria, sempre a mesma coisa...

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_-_-_Não era muito feliz, ou melhor, não se sentia feliz. (por que afinal, pode ser melhor sentir-se do que ser de fato...)_-_-_

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Tinha até ali uma vida medíocre, sem muitas emoções. Teve uma infância típica e normal, tinha família, com alguns problemas, irmãos, tios avós, primos. Nascido e criado em uma cidade grande, (onde vive até hoje), sempre teve vontade de mudar. Ele muito introspectivo, reservado, um homem tímido.

Tão logo a atendente o vê, já vai à contra mão ao atendimento que fazia, e corre a preparar o pedido costumeiro de seu cliente estranho. Era assim que todos no Caféh, atrás dos balcões, apelidaram aquele cliente. Mais rápido que o pedido, foi à entrega. Ele gostava muito de lá, apesar de hiper movimentado sempre no horário que ia, ainda sim a atendente sempre o atendera rápido, nunca esperava por muito o desjejum chegar...

-Bom dia Senhor!

Não responde apenas um olhar, parecido inclusive ao que a pouco havia lançado ao cachorro.

Hum... Esse cara, todas as manhãs, nunca responde a uma palavra de cordialidade, pelo menos sempre dá grandes gorjetas.

Café amargo era o que sempre pedia, e a única coisa que tomava pela manhã.

Ainda no Caféh, aquela manhã resolveu demorar-se um pouco, e ler ali mesmo o Jornal que normalmente comprava e levaria para o carro. Mas aquela manhã quebrou o protocolo e começou ali mesmo a leitura.

Um único olhar procurando a tendente, ela já sabia que ele queria mais um Café Amargo.

Aqui está Senhor, mais alguma coisa?

Não, obrigado...

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Gostava mesmo dos classificados, odiava todos os outros, principalmente o de esportes, tal tema não gostava.

Nem ele mesmo sabia ao certo o porquê gostava dos classificados, provavelmente procurava algo, um carro novo, uma casa, uma obra de arte, uma dessas coisas que se anunciam nesses espaços!

Ria, sempre ria ao passar as páginas do editorial.

Após a costumeira, vista nos classificados, pede a conta à atendente, repara nesta hora que era outra, que virá receber, diferente da já habitual, sendo assim, nada deu de gorjetas a esta.

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Cruza a porta de vidro.Chega ao carro.

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Olha rapidamente ao relógio da Praça, a grande praça que naquele horário, já estava movimentadissíma, isso o irritou, por minutos, ver uma multidão seguindo loucamente, e individualmente.

Naquela manhã já havia quebrado alguns protocolos, tomou dois cafés, leu os classificados, fora do carro, e era só o começo de mais um dia, decidiu ali, ao invés de pegar a Rua Herson onde deveria estacionar dar cordialmente um bom dia ao manobrista, ao porteiro, pegar o elevador, dar mais ‘’bom dia’’ a quem encontrasse no espaço, descer inicialmente no sétimo andar, dar mais ‘’bom dia’’ a quem encontrasse no corredor, até chegar a sua sala. Decidiu ali a poucos metros da Rua Herson, continuar, não sabia para onde, mas sabia que queria naquela manhã quebrar protocolos de sua vida!

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Cruzando a Rua Herson com a Rua Guida Prado, deu um leve sorriso, sentiu ali uma sensação nova, única de liberdade.

Rua Guida Prado à frente, seguiu.

Passou por vários caféh’s, e logo pensou e sentiu vontade de experimentar novos sabores, ver novas xícaras, ficou perdido por minutos em pensamentos, quando parou em um sinal vermelho, normalmente não os respeitava, mas algo naquela rua havia o inspirado de certa forma.

Buzinas, algumas buzinas o despertaram a seguir. Parou num próximo caféh, que encontrou, um de fachada modesta.

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A manhã era de quebra de protocolos, de rotina, de liberdade. O que ele há tempos não sabia ''Ser''!

Logo a atendente, Bom dia Sr. o que deseja?

-Bom dia! Traga-me um Café Amargo, por favor!...

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ps.: Quebre protocolos você também... Tente, pelo menos!!!

6 comentários:

Kari disse...

Quebrar protocolos é ariscado... Mas pode ser surpreendente e maravilhoso!!!

Beijos e belo conto!

Simone Campos Ormelezzi disse...

Conseguir as vezes é difícil...mas, tentar nunca é demais!

Continuarei tentando...pra sempre.

Bjs Saudades Si

memoriasealem disse...

Quebrar os protocolos é a melhor forma de sair das rotinas criadas por si mesmo para coisas que você não precisa e nem gosta de fazer.

A vida não é uma receita de bolo.

abraços
t+

Dri disse...

Eu estou precisando seguir alguns, acho que quebro protocolo demais rsrsrsrs

Murdock disse...

Muito bom texto.

Eu costumo dizer que o bom da rotina é poder quebrá-la.

Gabriela Magnani disse...

Rotina foi feita para não ser seguida! Pode ter certeza disso. Beijos.